BLUES DO DESERTO
os ecos ressoam ainda por dentro das cinzas,
aragem feroz de tantas as ruínas desfalecidas.
gritos mudos nas aldeias deserdadas do deserto,
sangue crestado a esvair sob a crua aridez da terra.
sangue a esvair violenta a gravidez das mulheres
e nascem crianças, pequenos corpos de sede:
rosas do deserto, essas crianças de olhos imensos.
suspensas as pálpebras na ardência do sol, o sonho,
amanhecer cada dia na miragem de uma assombrosa
maresia, ou da brancura de um trilho de respiração.
como aves nómadas, serem medo contra o vento,
vida contra a morte. crescerem os passos às nuvens,
fábulas escutadas na noite, breves clivagens no tempo:
rosas do deserto, essas crianças de olhos imensos.
24 de Dezembro de 2009
10 de Dezembro de 2009
LEITURAS # 31
TODA A GENTE
Toda a gente critica o telemóvel do vizinho
Mas no fundo toda a gente queria ter um igualzinho
Toda a gente grita: todos diferentes todos iguais!
Mas se calhar há uns quantos bacanos a mais
Toda a gente quer ser solidária
Mas na hora da verdade toda a gente desaparece da área
Toda a gente quer ser muito moderna
Mas a tacanhez essa há-de ser eterna
Toda a gente quer fazer algo de original
Acabando por copiar aquilo que acham original
Toda a gente repara que acabo duas frases da mesma maneira
(se for esse o caso toda a gente caiu na ratoeira)
Apenas quero confirmar se estou a receber a devida atenção
Da parte de toda a gente que ouve essa canção
Toda a gente precisa de parar e relaxar um bocado
E eu, como toda a gente, já ‘tou stressado
Refrão:
Pego no microfone e faço disso o meu talento
Por fora, por dentro, mostrando o meu rebento
Superficial, composto, directo e indirecto
Tá-se cool e tá-se bem
Entrega-te ao meu som é agora o que convém
Toda a gente critica
Toda a gente tem muita pica,
Mas é na mesa do café que toda a acção fica,
Não há dinheiro que pague este sozinho…
Manda mas é vir mais um cafézinho
Toda a gente até compra camisa
Mas dessa treta ao fim ao cabo já ninguém precisa
Toda a gente fala da situação em Timor
Muitos para ganharem algo, e muito poucos por amor
Há quem costume falar de revolução
Mas a revolução não vai ser transmitida na televisão
Ela tem que acontecer dentro de cada um
Caso contrário nunca chegaremos a lugar algum
Há quem queira resolver os problemas do mundo inteiro
De uma só vez, confiante, tal e qual um bom escuteiro
Mas enquanto se perseguem tão nobres ideais
Esquecemo-nos de limpar os nossos quintais
Tentamos combater todos os males da terra
Quando afinal é na nossa casa que começa a guerra
Toda a gente devia parar de falar olhar para dentro e agir
Virgul – dá-lhe a seguir
Refrão
Carlos Pac Nobre e Bruno Silva (Da Weasel), in “3º Capítulo”
Toda a gente critica o telemóvel do vizinho
Mas no fundo toda a gente queria ter um igualzinho
Toda a gente grita: todos diferentes todos iguais!
Mas se calhar há uns quantos bacanos a mais
Toda a gente quer ser solidária
Mas na hora da verdade toda a gente desaparece da área
Toda a gente quer ser muito moderna
Mas a tacanhez essa há-de ser eterna
Toda a gente quer fazer algo de original
Acabando por copiar aquilo que acham original
Toda a gente repara que acabo duas frases da mesma maneira
(se for esse o caso toda a gente caiu na ratoeira)
Apenas quero confirmar se estou a receber a devida atenção
Da parte de toda a gente que ouve essa canção
Toda a gente precisa de parar e relaxar um bocado
E eu, como toda a gente, já ‘tou stressado
Refrão:
Pego no microfone e faço disso o meu talento
Por fora, por dentro, mostrando o meu rebento
Superficial, composto, directo e indirecto
Tá-se cool e tá-se bem
Entrega-te ao meu som é agora o que convém
Toda a gente critica
Toda a gente tem muita pica,
Mas é na mesa do café que toda a acção fica,
Não há dinheiro que pague este sozinho…
Manda mas é vir mais um cafézinho
Toda a gente até compra camisa
Mas dessa treta ao fim ao cabo já ninguém precisa
Toda a gente fala da situação em Timor
Muitos para ganharem algo, e muito poucos por amor
Há quem costume falar de revolução
Mas a revolução não vai ser transmitida na televisão
Ela tem que acontecer dentro de cada um
Caso contrário nunca chegaremos a lugar algum
Há quem queira resolver os problemas do mundo inteiro
De uma só vez, confiante, tal e qual um bom escuteiro
Mas enquanto se perseguem tão nobres ideais
Esquecemo-nos de limpar os nossos quintais
Tentamos combater todos os males da terra
Quando afinal é na nossa casa que começa a guerra
Toda a gente devia parar de falar olhar para dentro e agir
Virgul – dá-lhe a seguir
Refrão
Carlos Pac Nobre e Bruno Silva (Da Weasel), in “3º Capítulo”
2 de Dezembro de 2009
LEITURAS # 30
recompostos de vento
surgimos do sinuoso obscurecimento.
trazemos uma matéria espessa colada às lágrim
aso embuste que embacia os lábio
se um rosto como um adeus
alongado pelo salitre do mundo.
pousamos o indecifrável nome das coisas
sequer a razão das fugas.
afinal quem fomos o que somos?
nós que um dia decidimos a trajectória dos passos pelos sinais do azul
obstinados no caminho onde os sussurros são mais cúmplices.
perseguimos a verdade de coisa nenhuma.
como companhia a incomensurável solidão das árvores
quando o sol se inclina com o peso das mãos cheias de febre.
quem somos se não sabemos regressar ao riso iluminado das crianças
à geografia de uma pátria que julgámos eterna?
recompostos de vento
surgimos para o lugar de nadas
as pálpebras cansadas de corpos invisíveis
até que a terra desperte de um doentio sono.
Maré, do blog Marés de Espanto
surgimos do sinuoso obscurecimento.
trazemos uma matéria espessa colada às lágrim
aso embuste que embacia os lábio
se um rosto como um adeus
alongado pelo salitre do mundo.
pousamos o indecifrável nome das coisas
sequer a razão das fugas.
afinal quem fomos o que somos?
nós que um dia decidimos a trajectória dos passos pelos sinais do azul
obstinados no caminho onde os sussurros são mais cúmplices.
perseguimos a verdade de coisa nenhuma.
como companhia a incomensurável solidão das árvores
quando o sol se inclina com o peso das mãos cheias de febre.
quem somos se não sabemos regressar ao riso iluminado das crianças
à geografia de uma pátria que julgámos eterna?
recompostos de vento
surgimos para o lugar de nadas
as pálpebras cansadas de corpos invisíveis
até que a terra desperte de um doentio sono.
Maré, do blog Marés de Espanto
20 de Novembro de 2009
defendem o sono no desabrigo
da negrura nocturna, na humidade
de um banco de gare ou de jardim,
na agrura rasa das pedras. mantas
cor da calçada, retorcidos os ossos,
como náufragos em meio de temporal,
fissuras mudas sem sutura sem rumo
à margem do marulhar voraz da cidade.
a tempos, pela penumbra outros os passos
na efervescência intransigente das horas
declinam o olhar ao rosto da orfandade
ao triste esteiro de orvalho, uma falência.
as aves aninhadas já não voam perto.
eles dormem - esses homens - e vivem
em silêncio, contra o medo contra a morte,
rastro de um fôlego de um luto em suspensão.
da negrura nocturna, na humidade
de um banco de gare ou de jardim,
na agrura rasa das pedras. mantas
cor da calçada, retorcidos os ossos,
como náufragos em meio de temporal,
fissuras mudas sem sutura sem rumo
à margem do marulhar voraz da cidade.
a tempos, pela penumbra outros os passos
na efervescência intransigente das horas
declinam o olhar ao rosto da orfandade
ao triste esteiro de orvalho, uma falência.
as aves aninhadas já não voam perto.
eles dormem - esses homens - e vivem
em silêncio, contra o medo contra a morte,
rastro de um fôlego de um luto em suspensão.
5 de Novembro de 2009
este tanger dos sinos
pela madrugada, uma récita
a dizer dor a dizer morte,
e depois as sirenes
a tantas as horas.
o frenesi repisado
das sirenes, palidez
no interior do fino aguaceiro,
gotas de sangue pelas artérias
da cidade.
uma urgência desabrida
a romper rumos,
como espuma de águas picadas
em desvio dos penhascos
em arremesso ao areal.
sulcos invisíveis
aos olhares de pedra,
às paredes escoadas de água
nos instantes de luz enfermiça
que o sol consente no horizonte.
pela madrugada, uma récita
a dizer dor a dizer morte,
e depois as sirenes
a tantas as horas.
o frenesi repisado
das sirenes, palidez
no interior do fino aguaceiro,
gotas de sangue pelas artérias
da cidade.
uma urgência desabrida
a romper rumos,
como espuma de águas picadas
em desvio dos penhascos
em arremesso ao areal.
sulcos invisíveis
aos olhares de pedra,
às paredes escoadas de água
nos instantes de luz enfermiça
que o sol consente no horizonte.
26 de Outubro de 2009
o alvoroço do vento, transtorno
na travessia da luz matinal.
suspeito o labor encurvado
na tremura dos campos,
a débil resistência das folhas
no desassossego das ramagens,
a despedida acelerada das aves
sacudidas nas asas da sua intuição,
as águas nervosas do alto mar
a roncarem por dentro das casas.
diz o vento evidências dos lugares.
e eu escuto este linguarejar pulmonar.
respiro agora a janela aberta da casa
por onde as vagas de cortinados fogem,
como fogem todos os instantes da vida.
na travessia da luz matinal.
suspeito o labor encurvado
na tremura dos campos,
a débil resistência das folhas
no desassossego das ramagens,
a despedida acelerada das aves
sacudidas nas asas da sua intuição,
as águas nervosas do alto mar
a roncarem por dentro das casas.
diz o vento evidências dos lugares.
e eu escuto este linguarejar pulmonar.
respiro agora a janela aberta da casa
por onde as vagas de cortinados fogem,
como fogem todos os instantes da vida.
12 de Outubro de 2009
ferozes, as portas abrem e fecham
como golpes sucessivos de mar
contra a superfície da moradia.
formas de desastrado furor na fuga do desencanto.
a rebentação irada dos passos sobre o soalho.
as grades verticais sobre os jovens lábios mudos.
a implosão do corpo na orla do momento seguinte.
como golpes sucessivos de mar
contra a superfície da moradia.
formas de desastrado furor na fuga do desencanto.
a rebentação irada dos passos sobre o soalho.
as grades verticais sobre os jovens lábios mudos.
a implosão do corpo na orla do momento seguinte.
2 de Outubro de 2009
não conservei as flores que me deste.
rosas da roseira brava do alpendre vizinho,
enlaçaste-as e estendeste-mas sorridente
e eu segurei o ramo em risos pueris,
rosas rubras na floração dos meus braços.
tempos houve em que o céu amanhecia de azul
a praia onde respirávamos fábulas transparentes
e a orla das marés vinha mansa, acariciar-me.
as gaivotas estridentes riam do alto dos penhascos.
nós escalávamos sem medo até ao ponto mais alto,
eu rasgava o vestido nas silvas e não me importava.
recordo efémeros passeios pelos declives do entardecer,
anos depois, com amigos de silêncios e paixões.
mas não conservei as flores que me deste.
rosas da roseira brava do alpendre vizinho,
enlaçaste-as e estendeste-mas sorridente
e eu segurei o ramo em risos pueris,
rosas rubras na floração dos meus braços.
tempos houve em que o céu amanhecia de azul
a praia onde respirávamos fábulas transparentes
e a orla das marés vinha mansa, acariciar-me.
as gaivotas estridentes riam do alto dos penhascos.
nós escalávamos sem medo até ao ponto mais alto,
eu rasgava o vestido nas silvas e não me importava.
recordo efémeros passeios pelos declives do entardecer,
anos depois, com amigos de silêncios e paixões.
mas não conservei as flores que me deste.
24 de Setembro de 2009
sabemos como as amoras silvestres
escorrem licorosas nas bocas,
sílabas doces de tardes quentes.
sílabas sequiosas do poema,
segredos da linguagem do amor
inscritos nas silvas maduras
como ramos únicos de sensíveis,
instintivos no aroma dos troncos,
que se entrelaçam num labirinto de luz
de uma margem e outra do caminho.
escorrem licorosas nas bocas,
sílabas doces de tardes quentes.
sílabas sequiosas do poema,
segredos da linguagem do amor
inscritos nas silvas maduras
como ramos únicos de sensíveis,
instintivos no aroma dos troncos,
que se entrelaçam num labirinto de luz
de uma margem e outra do caminho.
13 de Setembro de 2009
POUCOS DIAS NO VERÃO
Dez horas da manhã. Ainda húmido o areal com os grãos de areia insistindo em se colarem aos pés. Na realidade, ainda deveriam ser umas oito horas (efeitos das alterações à hora solar) a avaliar pela ausência de sol, pela ausência de pessoas... Pelo menos, saboreia-se a solidão só possível numa praia deserta a perder de vista, no nevoeiro que oculta o horizonte mas abraça os solitários que o buscam. É sonoro o sussurrar do mar, esbranquiçado pela espuma, implacável, esparzindo violentamente todas as suas partículas sobre as águas de um verde tão escuro que quase afunda na própria profundeza. Se gritasse, minha voz só encontraria resposta naquele marulhar, na brisa fresca da maresia a arrepiar a pele, na espuma que salta os pequenos penhascos, se estende na areia, nela se deita, encharcada. E os meus olhos, seguindo todas as linhas desta névoa sem fim, detêm-se na meia dúzia de surfistas que pacientemente se deixam oscilar em suas pranchas, aguardando as grandes ondas em silêncio.
Doze horas. O sol finalmente sorriu e a névoa retirou-se para longe. As ondas são agora mais calmas, mais tranquilas, sucedendo-se mansamente. Longos cordões de espuma quebram-se e dobram-se a ritmos diferentes, estendendo-se pelas águas até ao areal. No horizonte, o verde do mar pinta-se do azul do céu e o ar torna-se mais luminoso.
Duas crianças caminham a par, seus curtos passos ensaiando uma alegre correria, feita de ziguezagueantes desencontros e alguns tropeções alimentados a gargalhadas, até o cansaço natural as estirar na areia. Mas logo se levantam e correm à beira-mar. Na areia molhada, baldes na mão, apanham todo o tipo de conchas e cascas de mexilhão, pedrinhas e restos de algas, com uma euforia pura, só possível na infância. Encontrar a realização plena em momentos como este é privilégio desta idade ainda destituída de dúvidas existenciais e outras afins.
A paisagem humana não é muito variada, mas é a habitual. Corpos estendidos nas toalhas coloridas, virando-se dum lado e doutro a um ritmo quase cronometrado; alguns, mais friorentos, abrigados em pára-ventos; outros, comodamente recostados em cadeirinhas, à sombra de um guarda-sol, de jornal na mão, percorrendo os títulos do dia. E os pais, mal podendo relaxar e fechar os olhos, dar-se à sonolência convidativa do sol - sempre despertos pelos ruídos ou situações de perigo em que as crianças se aventuram, poderosas e confiantes na sua percepção algo ingénua do mundo. Alguns, após pedidos insistentes, levam os miúdos a molhar os pés e ficam tiritando perto da água com olhos suplicantes, perante os rostinhos impassíveis que não querem sair mais do mar.
Um pouco por todo o lado, “bolos” na areia, bolas lançadas ao acaso, ocasionais atletas de beira de água, iogurtes ou sandes ou bananas devoradas com apetite pelos mais pequenos (ou, nalguns casos mais renitentes, enfiados à força nas boquinhas e muito lentamente mastigados), o sol a aquecer, e adultos a saturar - os caprichos infantis não findam.
A menina tinha as mãos sujas de areia e queria lavá-las no mar, mas ao colo, sem molhar os pés. O pai torcia-se todo, tentando desajeitadamente fazer-lhe a vontade. Caiu-lhe o chapéu à água. O pai apanha-lhe o chapéu. Nova tentativa. Desiste. Desertam os dois rumo às toalhas. Voltam ao mar, desta feita, de balde na mão. Plano b: encher o balde, trazê-lo até às toalhas e, aí, lavar as mãos. Pensado e feito. E logo de seguida, com aquele brilhozinho caprichoso nos olhos, aquela doçura ensaiada na voz, exclama a pequenina: «Já lavámos as mãos, agora vamos sujar outra vez!».
Pela tarde, se me passeio nas ruas estranhamente pouco transitadas e olho o azul vivo da ria, a tranquilidade com que meia dúzia de carros ou bicicletas se cruzam amigavelmente na estrada e, do rádio ligado, crescendos e diminuendos rasgando a corda de um violino, sinto a força da beleza das coisas. Inquietante, no entanto, porque indefinida e carregada de emoção. E a emoção é sempre inquietante, principalmente quando parece querer transbordar. Por vezes, sinto cada momento como um só, outras, não me consigo impedir de sentir em cada momento o momento seguinte, como se retivesse todas as marés em mim sem nunca as distinguir. As ondas trazem essa ânsia permanente.
De quando em quando, há uma curva que descobre o colorido de umas poucas paredes, pequenos recantos de jardim. E, à chegada à vila, tal é a sua quietude que nem os sons de Kodály a acordam da sesta em que mergulha.
Dez horas da manhã. Ainda húmido o areal com os grãos de areia insistindo em se colarem aos pés. Na realidade, ainda deveriam ser umas oito horas (efeitos das alterações à hora solar) a avaliar pela ausência de sol, pela ausência de pessoas... Pelo menos, saboreia-se a solidão só possível numa praia deserta a perder de vista, no nevoeiro que oculta o horizonte mas abraça os solitários que o buscam. É sonoro o sussurrar do mar, esbranquiçado pela espuma, implacável, esparzindo violentamente todas as suas partículas sobre as águas de um verde tão escuro que quase afunda na própria profundeza. Se gritasse, minha voz só encontraria resposta naquele marulhar, na brisa fresca da maresia a arrepiar a pele, na espuma que salta os pequenos penhascos, se estende na areia, nela se deita, encharcada. E os meus olhos, seguindo todas as linhas desta névoa sem fim, detêm-se na meia dúzia de surfistas que pacientemente se deixam oscilar em suas pranchas, aguardando as grandes ondas em silêncio.
Doze horas. O sol finalmente sorriu e a névoa retirou-se para longe. As ondas são agora mais calmas, mais tranquilas, sucedendo-se mansamente. Longos cordões de espuma quebram-se e dobram-se a ritmos diferentes, estendendo-se pelas águas até ao areal. No horizonte, o verde do mar pinta-se do azul do céu e o ar torna-se mais luminoso.
Duas crianças caminham a par, seus curtos passos ensaiando uma alegre correria, feita de ziguezagueantes desencontros e alguns tropeções alimentados a gargalhadas, até o cansaço natural as estirar na areia. Mas logo se levantam e correm à beira-mar. Na areia molhada, baldes na mão, apanham todo o tipo de conchas e cascas de mexilhão, pedrinhas e restos de algas, com uma euforia pura, só possível na infância. Encontrar a realização plena em momentos como este é privilégio desta idade ainda destituída de dúvidas existenciais e outras afins.
A paisagem humana não é muito variada, mas é a habitual. Corpos estendidos nas toalhas coloridas, virando-se dum lado e doutro a um ritmo quase cronometrado; alguns, mais friorentos, abrigados em pára-ventos; outros, comodamente recostados em cadeirinhas, à sombra de um guarda-sol, de jornal na mão, percorrendo os títulos do dia. E os pais, mal podendo relaxar e fechar os olhos, dar-se à sonolência convidativa do sol - sempre despertos pelos ruídos ou situações de perigo em que as crianças se aventuram, poderosas e confiantes na sua percepção algo ingénua do mundo. Alguns, após pedidos insistentes, levam os miúdos a molhar os pés e ficam tiritando perto da água com olhos suplicantes, perante os rostinhos impassíveis que não querem sair mais do mar.
Um pouco por todo o lado, “bolos” na areia, bolas lançadas ao acaso, ocasionais atletas de beira de água, iogurtes ou sandes ou bananas devoradas com apetite pelos mais pequenos (ou, nalguns casos mais renitentes, enfiados à força nas boquinhas e muito lentamente mastigados), o sol a aquecer, e adultos a saturar - os caprichos infantis não findam.
A menina tinha as mãos sujas de areia e queria lavá-las no mar, mas ao colo, sem molhar os pés. O pai torcia-se todo, tentando desajeitadamente fazer-lhe a vontade. Caiu-lhe o chapéu à água. O pai apanha-lhe o chapéu. Nova tentativa. Desiste. Desertam os dois rumo às toalhas. Voltam ao mar, desta feita, de balde na mão. Plano b: encher o balde, trazê-lo até às toalhas e, aí, lavar as mãos. Pensado e feito. E logo de seguida, com aquele brilhozinho caprichoso nos olhos, aquela doçura ensaiada na voz, exclama a pequenina: «Já lavámos as mãos, agora vamos sujar outra vez!».
Pela tarde, se me passeio nas ruas estranhamente pouco transitadas e olho o azul vivo da ria, a tranquilidade com que meia dúzia de carros ou bicicletas se cruzam amigavelmente na estrada e, do rádio ligado, crescendos e diminuendos rasgando a corda de um violino, sinto a força da beleza das coisas. Inquietante, no entanto, porque indefinida e carregada de emoção. E a emoção é sempre inquietante, principalmente quando parece querer transbordar. Por vezes, sinto cada momento como um só, outras, não me consigo impedir de sentir em cada momento o momento seguinte, como se retivesse todas as marés em mim sem nunca as distinguir. As ondas trazem essa ânsia permanente.
De quando em quando, há uma curva que descobre o colorido de umas poucas paredes, pequenos recantos de jardim. E, à chegada à vila, tal é a sua quietude que nem os sons de Kodály a acordam da sesta em que mergulha.
in Revista “Sol XXI”, 1995
31 de Agosto de 2009
LEITURAS # 29
Nenhum regresso está preso às pálpebras.
Explicam-me, por fábulas, que só o que resta
do Verão é sensível à luz - como as ombreiras das
portas ou o restolho batido pela impossibilidade
do vento - e eu acredito.
Alguma coisa há de verdade em tudo isto
(nenhum regresso está preso às pálpebras):
olho por dentro do silêncio e o negrume
é nítido como um grito.
Sandra Costa, «Nenhuma Flor»
Explicam-me, por fábulas, que só o que resta
do Verão é sensível à luz - como as ombreiras das
portas ou o restolho batido pela impossibilidade
do vento - e eu acredito.
Alguma coisa há de verdade em tudo isto
(nenhum regresso está preso às pálpebras):
olho por dentro do silêncio e o negrume
é nítido como um grito.
Sandra Costa, «Nenhuma Flor»
31 de Julho de 2009
amplas sombras digladiam-se
na inclinação dos girassóis
quando o sol se demite -
(boas férias a todos!)
na inclinação dos girassóis
quando o sol se demite -
(boas férias a todos!)
23 de Julho de 2009
os olhos vertem as lágrimas
oceanos de erosão
nas palavras resgatadas
às linhas do coração.
ser cada madrugada
a névoa que recolhemos
nas paredes da memória,
o labor dos dedos
no tacto da raiz frágil
dos declives da casa.
os olhos como cristais cansados
o coração como rumor entre margens.
oceanos de erosão
nas palavras resgatadas
às linhas do coração.
ser cada madrugada
a névoa que recolhemos
nas paredes da memória,
o labor dos dedos
no tacto da raiz frágil
dos declives da casa.
os olhos como cristais cansados
o coração como rumor entre margens.
15 de Julho de 2009
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