21 de Dezembro de 2011

PRESÉPIO
...
contemplai dois rostos de infante
adormecidos em seu silêncio:
...
schiu… abrigai com cautela
seus sonos seus caminhos,
que cada menino é uma estrela.
em cada rosto uns olhos de sal,
luz de seus passos a ser areal.
...
e lá fora o céu recolhido
aos mistérios da noite.
...

...
com votos de Boas Festas e de um Bom Ano Novo a todos!

11 de Dezembro de 2011

a clareira laminada de luz
adensava por dentro do bosque.
era uma nação como jangada
com porão apertado de homens.


as bocas alteradas do medo
da nudez sem vagas ou vento
pediam uma ordem complacente
à esparsa espuma da memória.


a clareira laminada de sombra
adensava pelas leis impuras.
era uma nação como reino
sem inscrição viva na história.
...

2 de Dezembro de 2011

LEITURAS # 38

Fado

...
Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças açoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.
...
A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu
estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.
...
Maria do Rosário Pedreira, "A Casa e o Cheiro dos Livros"
...

12 de Novembro de 2011

O vento jorra na madrugada
sílabas prementes. de espanto
...
inscreve seu nome na pele
dos homens insuspeitos, na boca
...
breve de palavras suspensas
na espuma. deriva do vento
...
no fluxo ontológico da vida
nos lugares da luz primeira.
...

2 de Novembro de 2011

são horas líquidas os sonhos,
correntes d’ instinto que discorrem
da mente ou coração incauto
os medos os segredos oblíquos.

deixemo-los deslizar sem mastro
sem remo as redes da memória
se devagar pousamos o sono
na brancura leve do linho:
somos catarse e horizonte
somos o pano branco da vela
somos o vento que a enleva.
...

24 de Outubro de 2011

os homens vivem assombrosamente no interior da morte.
a cada dia morrem de orfandade na voragem do tempo.
...
morrem nas distâncias, idades contadas ao vento,
nas dores surdas do corpo do coração assolado,
nas vozes mudas, nas pedras de medo e solidão.
...
morrem nos instantes onde sepultam os nomes
os lugares, as palavras ditas e não-ditas,
muros altos que não conseguem habitar.
...
morrem nas máscaras nas mãos fechadas,
nas fugas nos rituais nas metamorfoses,
nas horas inflexíveis dos estendais da vida.
....
morrem na insanidade, nas sombras de exílio,
nas ventosas obscuras do aniquilamento,
no sangue devastado por dentro.
...
morrem na aridez das terras incultas,
na sede do calor incendiário do deserto,
nos destroços dos dias de rastilho aceso.
...
morrem nas margens da unidade cósmica
em fragmentos, estilhaços de andaimes e cimento
em arquitectura de fim dos antigos caminhos.
...
morrem a soldo por mesas requentadas e
hipóteses de pão, em meio das brumas
que escondem vampiros e ultimatos de sangue.
...
os homens morrem assombrosamente em vida.
como folhas d’outono que rasam o chão, sem retorno.
...

16 de Outubro de 2011

LEITURAS # 37

O Poeta NUNO DEMPSTER (n. 1944, Ponta Delgada) publicou este ano mais um livro imperdível, «Pedro e Inês - Dolce Stil Nuevo», que nos abre à luz ou à sombra que pairam dentro e fora das paredes cinza do mosteiro de Alcobaça, presentificando os amantes ou “surpreendendo-os”, pela força da sua imaginação criativa, nas margens do Mondego ou nas ruas quotidianas dos tempos que correm.
«A esposa que levaste em pedra e rito
Nunca a tiveste, infante. E o mais é mito.»
Ivan Junqueira (em epígrafe)

Impossível não recordar o célebre verso de Fernando Pessoa, «O mito é o nada que é tudo», Esse nada irreal, fabuloso, com que muitos povos explicam a sua origem ou dão resposta aos seus enigmas. Ou com que se vão criando lendas, fábulas ou até eufemismos da realidade. Mas o mito também pode ser a luz que fecunda novas percepções da realidade, inclusive pelo questionar da função do próprio mito, dos seus conteúdos sagrados ou idealizados e interiorizados colectivamente.
Penso ser nesta perspectiva que Nuno Dempster, no seu «Dolce Stil Nuevo», se distancia de um outro, liricamente renascentista, e nos apresenta, num estilo novo, sim, límpido, depurado, mas reflexivo em simultâneo, a sua modelação das figuras históricas de Pedro e Inês, presentificando-as na História dos homens, particularmente, contemporâneos.
A memória histórica do Poeta vai-se confrontando com a apurada lucidez da sua percepção do real, oscilando entre visões de Inês e Pedro na sua época, “redutíveis á História”, “que nada suspeitariam” que seria do amor ou de como poderiam ser, hoje, túmulos de pedra e uma incursão universal e actual pelos caminhos do amor e do desamor, da vida e da morte, das histórias humanas e o que delas sobra, de certo desencanto face a esta era de ruínas várias, enfim, da natureza e condição humana (como em outros seus livros, aliás) - que a mudança é irredutível na vivência dos homens e na expressão estética.

“Do terraço mais alto da cidade,
Vou vendo o movimento e penso em como
A vida se tornou repetitiva
No fluir isolado carro a carro
E no trânsito unido sem destino.
Separados por séculos de nada,
Semelhante ao que as ruas vão deixando
Como um rasto até à última curva,
De vez em quando Pedro e Inês cintilam
E salvam da igualdade humana e pobre
Um ou outro clarão inesperado.”


“Antemanhãs como essa, em que assassinos
Avançam para o sangue no silêncio
Frio da noite, tem havido tantas
Que já nem se ouve o grito degolado
Com que a vida termina de repente.
Há muito se tornaram em costume.
Assim Inês, assim os outros todos
Que a História não regista. Todavia,
Vivemos sobre mortos. Inês e Lorca gritam
(«Se levio, caminando entre fusiles»),
Grita ainda no Prado o homem de Goya,
Longos versos de Sena aos fuzilados.
Revolvo-me ao ouvi-los, Inês bela.
Não conheço justiça que os redima,
E, com eles, os outros mortos todos
Que nenhum deus salvou da madrugada.”


NUNO DEMPSTER, “Pedro e Inês – Dolce Stil Nuevo”, Edições Sempre-Em-Pé, 2011

7 de Outubro de 2011

LEITURAS # 36

"porque, através das suas imagens condensadas e translúcidas, dá-nos um acesso fresco à realidade": assim justifica a Academia a atribuição do Prémio Nobel da Literatura 2011 a Tomas Tranströmer, (n. Estocolmo, 15 de Abril de 1931) poeta, tradutor e psicólogo sueco.
Traduzido em diversas línguas, mas muito pouco em português (nomeadamente na esgotada colectânea "21 poetas suecos", publicada em 1981 pela editora Vega e organizada por Vasco Graça Moura e Ana Hatherly, onde curiosamente surge o poema "Lisboa", de que o Expresso online destaca os versos:
"No bairro de Alfama os elétricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes/Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões/Acenavam através das grades/Gritavam que lhes tirassem o retrato"
"Mas aqui´, disse o condutor e riu à socapa como se cortado ao meio/´aqui estão políticos'. Vi a fachada, a fachada, a fachada e lá no cimo um homem à janela/tinha um óculo e olhava para o mar"
"Roupa branca no azul. Os muros quentes/As moscas liam cartas microscópicas/Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa/´será verdade ou só um sonho meu?"

_ _ _

Entretanto, o blog Bibliotecário de Babel , de José Mário Silva, editou as traduções de João Luís Barreto Guimarães que aqui deixo hoje:

“HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
***

A ÁRVORE E A NUVEM (1962)

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.
Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.
***

DESDE A MONTANHA (1962)

Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.
«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.
Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.
***

PÁSSAROS MATINAIS (1966)

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.”

Tomas Tranströmer

in http://bibliotecariodebabel.com (grata! )


6 de Janeiro de 2011

“Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.”

Eugénio de Andrade,
“As Mãos e os Frutos”


ressoa a voz do vento
em vagas nas ramagens
vogando a casa vagamundo.
e é o mar que escuto dentro
marulho em quebranto
na caliça das paredes.

somos breves nesse linguajar,
a romper do silêncio
para a romagem da idade.
breves somos o ramo
na pedra agreste da nascente,
por onde as aves nomeiam os passos.
somos as asas como nómadas,
nas bocas as sílabas suspensas
no espanto das madrugadas.

breves somos as folhas do ramo
na geografia solitária dos nomes,
as ínfimas folhas que se desprendem
no inabitável pêndulo da vida,
em ondulação das marés frias.

31 de Dezembro de 2010

LEITURAS # 35

sonhando em esperança...


«O PORTUGAL FUTURO

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
e essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro»

RUY BELO



... os meus votos de um BOM ANO a todos!

10 de Novembro de 2010

uma mão de sede apoia-se
na cicatriz negra da parede.
uma mão que é corpo
com a secura da parede
o mutismo da parede.

adiante em campo raso
um improviso de tendas, lona
desolada na luta com o vento.
muitas mãos enterraram estacas,
pedaços de madeira cravados na terra.

as nuvens adensam, presságio outro
para a breve respiração dos corpos
perfilados, ainda e o vento.
homens mulheres e crianças
de garras nos baldes
nas caixas de tinta sem tinta
e nos bidões e garrafas
sustêm as horas
para a ração de água.

22 de Outubro de 2010

os ramos desenlaçam as folhas
pálidas no vento da estação
que é de outono o aroma da terra,
mas o país ainda arde, de rapace
autismo à inteireza do mar.

e no limiar cantos de ruas serão incêndio
e as paredes, a rebentar fissuras,
as campânulas de luz em desgaste.
e serão breves as palavras nas casas,
sem respiração assistida, sem pão,
os canteiros de rosas ressequidas,
o embate da desordem nas águas do desejo.

esvaem as cinzas na curva do vento,
curva das aves que conspiram exílios,
em terra cais à deriva, rumos incertos.

7 de Outubro de 2010

LEITURAS # 34

vai. voa. reaparece vestal e depois

adversária da noite e profética do barro. voa visionária e bíblica
sobre
as páginas d0 indomínio e rente à fala dos que murmuram templária. vai e volta depois. nómada. pura.
desencoberta e diáfana. ser ilha é preciso.

ilha ilha ilha ilha.

_________________________e


tivesse o dia esta cor de plátano meio de seda meio de rendição e finalmente serias o arrasto da claridade. que chega sempre. sem o gosto das semanas e dos meses em que te foram facas o azedume das sílabas.________os mortos vivem fora do escuro enquanto fazemos de conta que somos magnólias negras no chão da noite que se rende ao dia._________rasga-se a folha em espuma e esta em átomos. a luz é um código anacrónico a romper a figura de estilo que é arco e flecha num jogo sem pertença circunscrito ao poder da evocação.
tivesse a vida um deslize de punhos abertos na matéria figural dos astros e mais perto estaríamos do fulgor que é texto dentro do texto das horas.
é hora. de desmultiplicar este herbário que vive no coração. e voltar a ser sorriso. escrevente.
_______________________________

Isabel Mendes Ferreira, in blog PIANO

22 de Setembro de 2010

atravessamos as horas nas páginas abertas
como terra arável em mãos concretas.

da sombra a luz na ordem das ideias,
no instinto das águas, das pedras,
nas nascentes primeiras. metamorfoses

em inteira solidão. da nossa voz,
a madrugada do dia por vir.

2 de Setembro de 2010

as mulheres estugam os baldes
a redundar, para a fornalha
onde os homens batem as brasas
com ramagens órfãs do mato.

alongam as mangueiras os passos
fendendo sulcos impensáveis, como
ribeiros a cada curva na paisagem,
essa gente vestida de labaredas.

rumor último na idade dos troncos
nos rostos calcinados na noite:
pêndulo de vento na poalha de cinza.