24 de Outubro de 2011

os homens vivem assombrosamente no interior da morte.
a cada dia morrem de orfandade na voragem do tempo.
...
morrem nas distâncias, idades contadas ao vento,
nas dores surdas do corpo do coração assolado,
nas vozes mudas, nas pedras de medo e solidão.
...
morrem nos instantes onde sepultam os nomes
os lugares, as palavras ditas e não-ditas,
muros altos que não conseguem habitar.
...
morrem nas máscaras nas mãos fechadas,
nas fugas nos rituais nas metamorfoses,
nas horas inflexíveis dos estendais da vida.
....
morrem na insanidade, nas sombras de exílio,
nas ventosas obscuras do aniquilamento,
no sangue devastado por dentro.
...
morrem na aridez das terras incultas,
na sede do calor incendiário do deserto,
nos destroços dos dias de rastilho aceso.
...
morrem nas margens da unidade cósmica
em fragmentos, estilhaços de andaimes e cimento
em arquitectura de fim dos antigos caminhos.
...
morrem a soldo por mesas requentadas e
hipóteses de pão, em meio das brumas
que escondem vampiros e ultimatos de sangue.
...
os homens morrem assombrosamente em vida.
como folhas d’outono que rasam o chão, sem retorno.
...

9 comentários:

heretico disse...

perante morte dos homens é urgente erguer "pedras vivas"...

gostei muito do poema. enorme talento poético. o teu.

beijo

hfm disse...

Gostei. Muito.

Mar Arável disse...

Belo

porque não há morte
nem princípio

Licínia Quitério disse...

Belo regresso, belo poema, Maria Manuel.

Por tanto e tão pouco morrem os homens. Por tão pouco os fazem morrer. Mas nascem e renascem, sempre.

Nilson Barcelli disse...

Infelizmente, morremos quase todos os dias. Uns mais do que outros, é certo, e pelos mais variados motivos.
O poema é excelente. Tal como outros que li.
Parabéns pelo teu talento poético, que as tuas palavras revelam com bastante regularidade.
Beijos.

~pi disse...

devagar morremos
tão vivos
ainda



[ belo poema, bem-vinda de novo!
muitos beijos ]






~

Fanzine Episódio Cultural disse...

Donzelas do Apocalipse

Sem pai, sem mãe,
Sem leite materno...

Seu estômago vazio
Pediu por comida:
Com uma arma carregada
Roubou uma vida.

Escondia-se na escuridão,
Disfarçava-se na luz.
Foi a uma igreja...
Rezar, pedir perdão?
Não! Para roubar um pedaço de pão.

O mundo o condenou.
Amor e carinho
Jamais encontrou.

A sociedade o execrou,
A margem da vida o adotou.
Foi condenado a percorrer
Um longo e tortuoso caminho:
O seu exílio.

Mas, não estava só!
De ambos os lados,
Lindas e afrodisíacas donzelas
O seguiam:

A angústia e a fome
A solidão e a morte.

Do livro (O ANJO E A TEMPESTADE) de Agamenon Troyan.

© Piedade Araújo Sol disse...

e morrem todos os dias...

muito belo este poema.

beij

isabel victor disse...

Gostei imenso , imenso ...

levei

bj


i