15 de outubro de 2007

LEITURAS # 20

A dor dá-me novamente um corpo. Desde a puberdade que não tinha uma sensação tão forte de ter corpo, estou intensamente presente nele.
Só que este corpo tem alguma coisa de errado. É um corpo que arde a fogo lento.
E depois há a esperança. Na semana passada houve dois ou três dias em que eu tinha a certeza de que ela estava a desaparecer, que tudo voltara ao normal – já quase me tinha esquecido de como o meu corpo era normal antes de ter começado aquela dor lá atrás, nas costas. Não ousava ter esperança, naturalmente, mas tinha-a.
Nos meus pequenos passeios reparava que toda a paisagem nos últimos meses tinha adquirido como que uma tonalidade estranha por causa daquela dor. Aqui ou ali havia uma árvore onde a dor tinha sido mais intensa, aqui ou ali uma vedação onde tinha batido com a mão, ao caminhar. Quando passava novamente nesses sítios, nos dias em que não tinha dores, a dor parecia lá continuar, na vedação.
A dor é uma paisagem.
(…)
Ter esperança é quase tão difícil como o resto. Mas estamos mais habituados a ter esperança e a ter medo do que a estar no meio daquilo que esperamos ou tememos.
Aprendi: que não há nenhuma verdadeira saída para a vida.
Podemos quando muito adiar a decisão, com habilidade e astúcia. Mas não há saída. É um sistema totalmente fechado, e no fim existe só a morte. E a morte, claro, não é uma saída.

Lars Gustafsson, A Morte de um Apicultor

11 comentários:

Licínia Quitério disse...

Muito agradeço a tua visita ao meu Sítio.
E que prazer conhecer a tua escrita. Aqui voltarei assiduamente.

hfm disse...

O arrepio da clarividência.

PostScriptum disse...

Eu diria - acrescentando o hfm - a lição da clarividência.
Um beijo

N. disse...

O que eu gostei de ler esse livro...

M.C. disse...

Maria,

Não consigo imaginar o sofrimento das grandes dores físicas.
A 'dor da alma'... Talvez!
Como explicar então, a quem se tortura que a esperança vale toda e qualquer dor?

Uma vez que a dor e o sofrimento são inerentes à natureza humana.

(A)braços :)

M.C

alex disse...

esse é outro dos livros que está na minha whishlist (graças à n., que me despertou o interesse para ele)

maria m. disse...

licínia,
obrigada pela visita e pelas palavras de apreço.

hfm e postscriptum,
clarividência... também foi essa a minha leitura do texto. uma lição sobre a vida e a morte.

n.,
sei que gostaste. e olha, lembrei-me disso (de tu e o jk terem gostado) quando estava a fazer o post.

m.c.,
tens razão, a dor faz parte da nossa vida.
no caso desta personagem (que sabia ter uma doença terminal), a noção de dor, vida, morte, esperança, é vista com maior «clarividência», como disseram atrás.

alex, lê e vais gostar certamente.

JRL disse...

Olá Maria,
Fiquei curiosa com a leitura. Um beijo

maria m. disse...

jlr,
este é um livro pequeno materialmente, mas grande sobre a vida e a morte. bjo.

manhã disse...

gostei muito deste livro, a seguir a lê-lo li tudo do autor, este era o melhor.

maria m. disse...

do autor só li despois «A amante colombiana», mas também achei este melhor.

obrigada pela visita :)