16 de outubro de 2011

LEITURAS # 37

O Poeta NUNO DEMPSTER (n. 1944, Ponta Delgada) publicou este ano mais um livro imperdível, «Pedro e Inês - Dolce Stil Nuevo», que nos abre à luz ou à sombra que pairam dentro e fora das paredes cinza do mosteiro de Alcobaça, presentificando os amantes ou “surpreendendo-os”, pela força da sua imaginação criativa, nas margens do Mondego ou nas ruas quotidianas dos tempos que correm.
«A esposa que levaste em pedra e rito
Nunca a tiveste, infante. E o mais é mito.»
Ivan Junqueira (em epígrafe)


Impossível não recordar o célebre verso de Fernando Pessoa, «O mito é o nada que é tudo», Esse nada irreal, fabuloso, com que muitos povos explicam a sua origem ou dão resposta aos seus enigmas. Ou com que se vão criando lendas, fábulas ou até eufemismos da realidade. Mas o mito também pode ser a luz que fecunda novas percepções da realidade, inclusive pelo questionar da função do próprio mito, dos seus conteúdos sagrados ou idealizados e interiorizados colectivamente.
Penso ser nesta perspectiva que Nuno Dempster, no seu «Dolce Stil Nuevo», se distancia de um outro, liricamente renascentista, e nos apresenta, num estilo novo, sim, límpido, depurado, mas reflexivo em simultâneo, a sua modelação das figuras históricas de Pedro e Inês, presentificando-as na História dos homens, particularmente, contemporâneos.
A memória histórica do Poeta vai-se confrontando com a apurada lucidez da sua percepção do real, oscilando entre visões de Inês e Pedro na sua época, “redutíveis á História”, “que nada suspeitariam” que seria do amor ou de como poderiam ser, hoje, túmulos de pedra e uma incursão universal e actual pelos caminhos do amor e do desamor, da vida e da morte, das histórias humanas e o que delas sobra, de certo desencanto face a esta era de ruínas várias, enfim, da natureza e condição humana (como em outros seus livros, aliás) - que a mudança é irredutível na vivência dos homens e na expressão estética.

“Do terraço mais alto da cidade,
Vou vendo o movimento e penso em como
A vida se tornou repetitiva
No fluir isolado carro a carro
E no trânsito unido sem destino.
Separados por séculos de nada,
Semelhante ao que as ruas vão deixando
Como um rasto até à última curva,
De vez em quando Pedro e Inês cintilam
E salvam da igualdade humana e pobre
Um ou outro clarão inesperado.”

“Antemanhãs como essa, em que assassinos
Avançam para o sangue no silêncio
Frio da noite, tem havido tantas
Que já nem se ouve o grito degolado
Com que a vida termina de repente.
Há muito se tornaram em costume.
Assim Inês, assim os outros todos
Que a História não regista. Todavia,
Vivemos sobre mortos. Inês e Lorca gritam
(«Se levio, caminando entre fusiles»),
Grita ainda no Prado o homem de Goya,
Longos versos de Sena aos fuzilados.
Revolvo-me ao ouvi-los, Inês bela.
Não conheço justiça que os redima,
E, com eles, os outros mortos todos
Que nenhum deus salvou da madrugada.”

NUNO DEMPSTER, “Pedro e Inês – Dolce Stil Nuevo”, Edições Sempre-Em-Pé, 2011

6 comentários:

Vieira Calado disse...

Não conhecia o autor.

Agora já sei um pouquinho!

Saudações poéticas

heretico disse...

beijo
grato pela presença amiga.

tulipa disse...

Obrigada pelo comentário.
E por dar a conhecer autores interessantes.
um abraço
tulipa

Xana disse...

Não conheço justiça que os redima,
E, com eles, os outros mortos todos
Que nenhum deus salvou da madrugada.”

Que belo, e autentico nos dias que correm contra um Sol que teima em se encobrir no desanimo...


Beijos e obrigada!

Vieira Calado disse...

Vim ver se havia novidades...


Bom fim se semana!

tem a palavra o povo disse...

Olá Maria Manuel

e eis que desaguei
neste mar abrupto de emoções
em que o poeta desmistifica
o mito e o real
que assola a alma Portuguesa
em versos de encantamento
para que subsista
na raiz e à flor da memória
a mera condição humana
jrg
um abraço de emoção...sou do Nuno Dempster um ramo frágil na vivência profunda da sua humanidade...
um abraço, amiga